Seu ódio pelo PT não pode ser maior que o amor pelas suas conquistas

por Mariana Zirondi

Foi viajando para a minha cidade, no interior do Paraná, durante o período eleitoral, que comecei a identificar mulheres que, por inúmeros motivos, acreditam ser o ódio pelo PT maior do que aquilo que Bolsonaro representa para a nossa liberdade.

Muitas acham que por não se identificarem pobres, negras, homossexuais ou não terem sido vítimas (ainda) de violência, não devem temer Bolsonaro como presidente. Algumas, inclusive, se identificam quando ele classifica pautas de movimentos e grupos minoritários como vitimismo ou coitadismo.

Fiquei pensando em muitas delas que não se reconhecem feministas e ainda não descobriram os benefícios da empatia.  E talvez isso tenha muito a ver com a formação das suas famílias, dessas que, assim como a minha, são tradicionais brasileiras.

É claro que não há problema nenhum nisso. Todos queremos proteger nossas famílias, queremos o melhor para nossos entes queridos, estamos dispostos a fazer escolhas que beneficiem àqueles que amamos. No entanto, queria aqui compartilhar o que vivi dentro da minha casa nesses últimos meses, sendo este um lar que pode identificar tantas famílias. E que podem, talvez, estar vivendo a mesma situação, mas que, de certa forma, ainda não conseguiram identificar o quanto pode afetar o dia a dia em detalhes tão sutis.

Meu pai sempre foi um chefe de família tradicional, cheio de comportamentos machistas e regras bem definidas para os papeis que eu e minha mãe deveríamos desempenhar dentro de casa por sermos mulheres. Lutamos por alguns direitos que hoje, olhando para trás, nos parecem tão básicos, como tirar a carteira ou entrar em uma universidade. Minha mãe conquistou o “direito” de trabalhar fora quando já tinha 36 anos.

O machismo que vivemos no dia a dia foi mudando de formato conforme minha mãe foi conquistando algumas independências, como a financeira. É claro que ela não perdeu suas obrigações, essas estabelecidas nos contratos morais, como cuidar da casa, dos filhos, do jantar. Mas, como brasileira, assumiu os diversos papéis que lhes foram dados e os desempenha com maestria.

Eu cresci assistindo a tudo isso, inconformada com as barreiras que tivemos que enfrentar, vítima da opressão do meu pai, mas inspirada pela vontade de realizar meus sonhos de forma leve e tranquila. Ainda é difícil reconhecer que talvez meu pai não tenha se importado tanto, por exemplo, com a escolha da minha profissão ou ainda se ela iria me sustentar e me tornar independente. Afinal, para ele, caberia a um marido o papel de me cuidar.

Com os anos, já conseguimos olhar para essas expectativas paternas (que não são de todos, é claro) e entender que sim, podemos fazer isso caso seja nossa escolha, mas podemos ir além e pagar as próprias contas, sair de casa para morarmos sozinhas e viver de forma independente.

E eu cheguei lá com a sorte de ter sido criada por uma mulher que, assim como outras tantas mães, me empoderou para ser capaz de fazer minhas próprias escolhas. Mesmo com tamanha resistência que sofremos, resistimos, e passamos a acreditar que depois de nos ver capazes de tomar o rumo de nossas vidas, meu pai tinha melhorado a sua visão sobre as mulheres.

Eu estive feliz até que Bolsonaro e seus discursos de ódio e opressão tomaram conta daquilo que eu e ela demoramos tanto para regar dentro de casa. É como se nossas conquistas tivessem sido desqualificadas por alguém que chegou para validar o pensamento adormecido do meu pai.

Passei os últimos meses me deparando com um homem esquecido naquelas épocas que eu e minha mãe precisávamos brigar para estudar, trabalhar ou colocar a roupa que quiséssemos. Existe em casa um homem que me pede para tomar cuidado ao sair sozinha, mas que apoia com adesivos e vídeos de Whatsapp um líder que, claramente, incita o assédio moral e sexual contra as mulheres. Mulheres livres, como sua própria filha, que estão nas ruas fazendo suas escolhas e sendo quem elas quiserem ser.

A repressão pode estar mais perto e invisível do que você imagina. Pense ao seu redor nas mulheres que ainda não conseguiram dar um passo adiante dentro de suas famílias. Essas vozes que podem estar abafadas tentando se libertar de padrões que sacrificam os sonhos que não são apenas delas, mães, mas também de suas filhas, acuadas por um determinismo diário de que precisam seguir a conduta estabelecida por seus pais.

Isso também pode acontecer no seu café da manhã. E se não te agride, pense nas escolhas dessas pessoas próximas a você. Pessoas que podem ser mulheres negras ou brancas, hetero ou homossexuais, pobres ou ricas, marginalizadas ou elitizadas. Ou então que desejam simplesmente estudar, tirar carteira de motorista, morar sozinhas, não se casar.

Esqueça por um momento o que um partido significa para você. Apenas imagine o que ele representa dentro de tantos lares em que a tradição da família brasileira pode ter entrado pela porta e, em seguida, pulado pela janela. Ou ainda nas casas que ela nem sequer entrou, porque ter uma tradição não é uma questão de caráter, mas sim de escolha.

Votar no Bolsonaro é voltar no tempo das nossas conquistas. Conquistas básicas, simples, naturais. Representa validar um discurso de ódio contra aquilo que queremos ser, fazer ou praticar. Votar no Bolsonaro pode nos fazer regredir em conquistas diárias que interferem claramente na forma como seremos acolhidas e realizadas dentro e fora de casa.

Votar no Bolsonaro pode transformar o voltar para casa mais difícil. Pode tornar os almoços de domingo indigestos e aumentar as ofensas, as críticas, a baixo autoestima. Os sonhos podem regredir àquelas regras que tentamos com muito custo mudar para viver melhor.

É por isso que, para mim, o #EleNão é um grito de todos que desejam o direito de revolucionar, de escolher, de se defender. Ainda dá tempo de se dar essa chance: não deixe que o ódio pelo PT seja maior que o amor pelas suas conquistas.

2 comentários em “Seu ódio pelo PT não pode ser maior que o amor pelas suas conquistas

  1. Parabéns Mariana Zirondi pelo seu texto. As mulheres empoderadas merecem seu espaço e não precisamos de conselhos machista para seguir a vida e como diz o ditado, SER DONA DO SEU NARIZ independente de tempo, espaço e família. Vivi minha vida toda, eu e minhas 5 irmãs dentro de um lar com uma mãe empoderada com toda a liberdade para viver a as escolhas e ai se meu pai fosse contrário. É assim que tem de ser. Viva a liberdade e a coragem de nós MULHERES.

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  2. Mariana, obrigada por essas palavras tão cheias de vivacidades e também por esperança. E sua esperança é pautada na esperança da indignação. E não esperança do verbo esperar que um dia tudo será diferente. As mudanças e aprendizados ocorrem no momento presente, no agora com aquilo que dispomos. Uns se utilizam dos textões, outros da oratória, outros ainda da escuta cuidadosa. Ser agente de mudança da gente mesmo é tarefa árdua mas necessária para nossa reforma íntima e suas palavras tão bem posicionadas dá um baita alívio para quem se sente sozinha nessa jornada.

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