Saiba reconhecer quando o amor acontece

por Mariana Zirondi

Eu decidi quebrar o meu silêncio. Não que isso tenha alguma coisa a ver com você. De forma alguma. Isso diz respeito, apenas, à forma como eu lidei com o fim. Chorei o que não podia, te odiei mais do que eu deveria e decidi então ir embora. E não foi fácil, mas foi um alívio. A ideia de ir para longe de tudo que me lembrasse você, me fez mais forte.

Os dois primeiros meses foram tranquilos. Toda aquela novidade me fez achar que estávamos superados. Me enganei. Com o passar do tempo, o assunto proibido da minha vida me fez visitas avassaladoras. A grande verdade é que uma nova cidade pode até mascarar algumas coisas por um tempo, mas você leva você quando se muda. E eu te levei e me lembrei, absolutamente, todos os dias. Já nem sei quantas vezes vi alguma coisa e quis te mostrar. Quantas vezes ouvi uma música e quis te mandar. Quantas vezes fiquei sabendo de algo e quis te contar. Quantas vezes entrei no chuveiro e lembrei que você não gosta de água quente.

E essas lembranças foram mexendo silenciosamente naquilo que, até há algum tempo, não se podia falar o nome. Eu coloquei você dentro do meu silêncio, intocável. Porque cada vez que eu ouvia notícias suas, o meu coração parava por cinco segundos, como se dois anos e meio passassem como um filme de romance que eu queria esquecer.
Mas isso também não me fez bem. Fugir do meu passado com você não me ajudou a superar. Foi então que, aos poucos, revisitei as nossas lembranças e verbalizei o que mais me atormentava. A saudade de tudo que a gente viveu me sufocava e, ao mesmo tempo, não fazia mais sentido.

Comecei a decupar cada cena, cada sentimento, cada ano. E como a gente era criança. Eu era uma menina completamente envolvida pela coisa mais sincera que já senti na minha vida. E, você, um garoto perdido pelos impulsos de algo tão verdadeiro e confuso. Eu comecei a pensar em várias coisas pela primeira vez. Algumas falas suas fizeram sentido e continuam me perseguindo, como uma culpa por aquilo que não fiz ou não demonstrei.

É por isso que estou aqui agora. Me perdoar e te perdoar não faria muito sentido se eu não te falasse tudo isso. Então, eu preciso te dizer que você foi a melhor coisa que já me aconteceu. Você me salvou. Depois de você a minha vida deu uma virada, e por mais que eu seja exatamente aquilo que sou, você me ajudou a descobrir isso. Você me ensinou tanto, me deu aulas infinitas de amor, de determinação, de carinho. E te digo isso hoje com uma clareza absurda, porque eu acho que minha dificuldade em aceitar o fim estava justamente nessas coisas que mudaram em mim.

Seguir, a partir de agora, é uma escolha que vou fazer sozinha, mas com o conforto de saber que eu reconheço o homem que você é. E isso eu vou te dever para sempre. Nunca ninguém fez por mim o que você fez e talvez nunca o faça.

Eu te perdoo por ter ido. Eu me perdoo por ter ficado. Eu te perdoo pelas decepções. Eu me perdoo pelas exigências. Eu te perdoo por ter seguido em frente. Eu me perdoo por ter demorado. Eu te perdoo por ter o sorriso mais sincero ao lado de alguém que não sou eu. Eu me perdoo por ainda não ter conseguido sorrir. Eu te perdoo por não ter sido sincero em muitas situações. Eu me perdoo por nunca ter feito uma festa surpresa para você. Eu te perdoo por ser mais corajoso que eu. Eu me perdoo por nunca ter atravessado a rua pedindo para você ficar, mesmo sabendo que essa seria a nossa única salvação. Eu te peço desculpas por tudo isso e ainda me perdoo por amar tanto você ao ponto de reconhecer que eu nunca poderia ter feito você feliz.

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