A vida sem coragem dos amores digitais

por Mariana Zirondi

A gente se conheceu na vida real, em um sábado, 3 da manhã. Ele tinha acabado de viajar 300 km para um encontro frustrado do Tinder. A moça falava pouco, ele disse. Eu só estava mesmo parada naquela padaria para comer, depois de ficar quatro horas em pé para ver a banda de um amigo tocar.

Nada de interessante teria acontecido se ele não tivesse entrado pela porta confessando que sim, viajou para conhecer alguém. Quanta disposição, eu pensei. Depois disso, 900 km passaram a nos separar desafiando até as habilidades dos aplicativos de paquera de unir pessoas.

Ele me seguiu no Instagram, eu segui de volta. Nos transferimos para o Whatsapp em um sábado a noite qualquer que passava Miss Brasil na televisão. O Paraná ganhou, comemoramos. E ele ganhou também meus sorrisos todas as vezes que via sua foto piscar na tela do meu celular.

Gostei do tamanho do seu nome escrito na tela. Gostei do desenho que seu sobrenome formava por envolver consoantes pouco prováveis na língua portuguesa. Passei a ver seu perfil mais de perto e a olhar cada publicação nas redes sociais. É por isso que eu insisti nessa relação que tinha tudo para dar errado, mas um mundo de ferramentas virtuais para fazer dar certo.

Migramos para o Facebook, curtimos bons momentos. Fomos para o Snapchat e filtramos lindos dez segundos. O tempo passa rápido quando a gente se diverte e então descobrimos as conversas em vídeo, as ligações no meio da noite, os suspiros embalados pelo desejo de se ver ainda mais pertinho.

A nossa relação se tornou tão perfeita que o medo da vida real adiou o encontro ao vivo. Também poupou os beijos apaixonados, andar sem roupa pela casa, pedir pizza com a Netflix, ou o concurso de Miss, tanto faz. Percebi que nosso amor talvez fosse assim digital e nossas brigas se limitassem ao “você consumiu 80% do seu pacote de dados”.

Para quê arriscar aquilo que já tá tão certo se a rotina do dia a dia cobra tanta coisa, diz tanta coisa, exagera tanta coisa. Seguimos trocando likes e memes, links e fotos, mensagens e músicas. Fomos seguindo separados porque talvez a realidade não seja capaz de suportar a covardia que os amores contemporâneos carregam ao pensar que um simples olho no olho, tão comum na década de 90, tenha se tornado tão dispensável na época atual.

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