Uma parte de nós renasce quando nos tornamos tios

por Mariana Zirondi

Existe uma força maior, um sentimento que transborda, uma alegria que enriquece e um amor chamado ser tio quando um sobrinho nasce. A gente experimenta tantos amores que acha que o único ainda inédito vai ser quando nos tornarmos pais. Eis que os irmãos decidem fazer bebês e estes te dão o título de tio, titio, titi, seja lá qual for, e você descobre que esse amor simplesmente nunca tinha sido sentido.

Isso também significa que antes do seu nome você receberá um carinhoso tio ou tia permanentes independente de quem estiver te chamando. E os seus pais, aqueles que você costumava chamar de pai e mãe, automaticamente viram vô e vó. Uma energia maluca vai dominar a casa deles e aquela residência, que por muitos anos foi sua e ficou adulta com você, recebe uma quantidade diversa de objetos coloridos, banheira no banheiro, brinquedos, cobertores fofos, mamadeiras espalhadas pela pia da cozinha.

E o seu irmão ou irmã, aquelas pessoas adoráveis por quem você cultiva eternos momentos de amor e ódio, vão anunciar uma gravidez, vão colocar a sua mão na barriga deles, vão te mostrar, mês a mês, os exames, vão enviar no grupo da família as roupinhas fofas que ganharam, vão te pedir presentes caros, dizer que era brincadeira na sequência e, ainda assim, você vai comprar tudinho. E vai se emocionar e esperar ansiosamente pelo parto, porque o filho de um irmão é uma parte de você que renasce também.

Quando a gente era pequeno, eu e meu irmão brincávamos muito de casinha. Ele sempre foi meu parceiro nisso. E imaginávamos como seria nossa família quando a gente decidisse se casar e ter filhos. Ele dizia: ‘você vai ser mãe primeiro, porque é mais velha’. Eu concordava porque era o mais lógico a se fazer. Eis que ele me surpreende em uma segunda-feira de sol com um telefonema narrando dois testes de gravidez de farmácia que tinham dado positivo.

Naquele dia, tudo mudou. Mudou ele, mudou eu, mudaram meus pais, meus avós. O clima mudou, nós aumentamos. De quatro, passamos para seis, nos consolidamos, nos reestruturamos e nos emocionamos muito. No dia do nascimento, eu não estava lá. Chorei a culpa de ter escolhido morar longe, mas chorei também o orgulho de ver meu irmão se tornando pai.

Uma parte da gente se transforma quando um ser tão pequeno entra nas nossas vidas. Ele nos dá a chance de começar de novo, de refazer os planos, de rever nossas atitudes, de reconfigurar o que já estava configurado há tantos anos. Sentimos amor por um ser que dorme e mama e suja fraldas o dia todo. Ficamos olhando por horas para aquele rostinho que apenas enxerga vultos nos primeiros meses. Temos certeza de que eles se parecem com a gente e mesmo que não, tentamos achar um pedaço da unha do dedinho que possa vir a ter alguma semelhança.

Ser tio é agradecer pela troca, pelo sorriso, pelo carinho e pela importância. Se antes vagamos soltos por aí, agora temos um abraço apertado que vem em forma de corrida chamando seu nome todas as vezes que você chega. E você há de amá-lo, incondicionalmente, porque é um pedaço de você que ele vai levar todas as vezes que sorrir feliz por fazer parte dessa família que, juntos, vocês chamam de “nossa”.

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