Morar em São Paulo é mudar um pouco todos os dias

por Mariana Zirondi

Quem é fã de Lua de Cristal, icônico filme da rainha Xuxa, deve se lembrar de quando Maria da Graça decide ser uma grande cantora e vai embora da cidade pequena para tentar a vida na capital. Logo que chega, se vê perdida em um viaduto rodeada por rappers com um rádio bem grande nos ombros. Simpática, claro, já começa ali o seu sucesso, conquistando novos amigos, dançando com eles na rua e entrando na vibe da cidade grande.

Foi ali, com aquele filme, o ponto zero do meu sonho de ser adulta, chegar na maior metrópole brasileira, conhecer uns rappers, dançar no viaduto e logo conquistar a galera toda com o meu gingado. Mas confesso que cheguei em São Paulo um pouco mais discreta que Xuxa (que no filme chega no Rio de Janeiro), pela Castelo Branco, desembarcando na Rodoviária da Barra Funda. Pelo excesso de bagagem, porque não fui tão humilde quanto Maria da Graça, pedi um táxi e passei motorizada por uns viadutos na Avenida Antártica que cabem, chutando baixo, uns 300 dançarinos.

Em 5 anos aqui, cruzei com alguns rappers, confesso. Sérgio Malandro, seja equilibrando pizzas ou no cavalo branco, conheci alguns, mas já se foram, ainda bem. E o bom (e ruim) de morar em São Paulo é que dificilmente você esbarra em conhecidos (e desconhecidos), evitando aquela icônica cena da troca de tênis.   

Ganhei novas referências. Canto “Às vezes”, de Tulipa Ruiz, sempre quando vou a Augusta e o que mais me assusta é como essa cidade muda todos os dias. Se você quiser morar aqui também, se é que já não tomou essa decisão, prepare-se para fazer amigos e marcar, com dois meses de antecedência, o dia que irão se encontrar. E não importa o que aconteça, apareça, pois essa pode ser a última vez no ano para encontrar suas pessoas queridas.

Viagens entre bairros serão comuns, com uma duração, de no mínimo, 30 minutos. Ensaios de procissão na baldeação entre a estação Paulista e a Consolação, também. Grande dificuldade para entender qual o sentido centro e qual o sentido bairro da Avenida Paulista, com certeza. E você vai se perder muitas e muitas e muitas vezes. E quando se encontrar, você “vai ficar um nojo”.

Todos os dias você há de conhecer algo novo e descobrir uma pessoa nova. Não há como se cansar por mesmice. O cansaço vem da novidade e o tempo vai passar voando. Talvez a solidão vai bater e a multidão vai sufocar. Porém, a graça está em permitir ser surpreendido por aquilo que não fazia ideia que existia, mas que aqui já está em funcionamento há muito tempo.

É uma cidade que abraça os imigrantes, os nascidos aqui, os esquecidos de lá. Tem espaço para todo mundo, mesmo que este espaço seja bem pequeno concentrado em um quarto, sala, cozinha e banheiro. Muitas vezes tudo isso em um único cômodo de 36 metros quadrados, ou menos. Custará uma fortuna, sim. Poderá ganhar bem para pagar com tranquilidade? É provável que não.

As perguntas sobre a real necessidade de se mudar para São Paulo vão aparecer. Dirão que sua saúde ficará prejudicada pela poluição. Que sua pele nunca mais será a mesma pela qualidade da água. Que o barulho não te deixará dormir. Que o tempo vai passar tão rápido que sua vida perderá a graça em um congestionamento qualquer na Marginal Pinheiros. Você encontrará paulistanos que dizem: “meu sonho é sair daqui”, mas que não aguentarão um único final de semana em qualquer cidade do interior.

E ainda terá que responder outras perguntas, como: “você acha que compensa o seu salário pelo custo de vida?” Não, definitivamente não compensa. Mas é mesmo no coração que alguma coisa acontece, como foi com Caetano, e pode acontecer com você também. 

Aqui tem espaço para tudo e todos. Inclusive para muita desigualdade, muita injustiça, muito sofrimento. Espaço para pessoas que nasceram aqui mas nunca andaram de metrô, que nunca visitaram a Avenida Paulista. Pessoas que não tem dinheiro para comprar o básico e que passam bem longe do requintado e delicioso roteiro gastronômico da cidade. Pessoas para os quais importam sim os R$ 0,30 de aumento no transporte, e a falta de vaga nas creches, e o medo da violência, e a vulnerabilidade de estar nas ruas, e a maior parte do dia tentando chegar no trabalho, na escola ou em casa. 

Ainda assim, escolhemos ficar. O romantismo do começo desse texto se perde quando entendemos as dificuldades de se viver aqui. Ainda assim, quando fecho os olhos, tenho esperança de que, um dia, será a melhor cidade do mundo. E mesmo Criolo dizendo, com toda razão, que não existe amor em SP, eu ainda quero acreditar que existe sim e é o que nos mantêm aqui.

 

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