Esqueça o celular e se apaixone por alguém da vida real

por Mariana Zirondi

Existe uma doença chamada rizartrose, que é uma artrose nos ossos dos polegares em virtude da manipulação do celular. Crianças e adolescentes, imagino que adultos também, estão, cada vez mais, sendo vítimas.

Pois bem. A vida está passando enquanto você cultiva a sua rizartrose, meu bem. E não estou aqui dizendo que essa tal doença não vai me pegar de jeito nos próximos segundos. Acontece que a vida ficou muito pautada na tela do seu celular, enquanto ela deveria ser vivida pelos seus olhos nos olhos dos outros.

Me desculpem os adeptos aos aplicativos de paquera, ou ainda daquela minha amigona que encontrou o mozão no polegar. Eu só acho que conhecer as pessoas na vida real te dá uma sensação de estar realmente fazendo algo direito.

Com ele foi assim. A gente se conheceu em uma situação que vinha se repetindo há tantos anos que minha expectativa de chegar em um evento e encontrar alguém legal passou de zero para “eu nem cogito mais isso”. E foi com uma pergunta básica, pedindo ajuda para identificar a namorada de Cauã Reymond em uma foto, que eu ouvi a sua voz pela primeira vez. Eu tirei foto da foto, mandei no grupo das amigas, elas logo identificaram e eu disse: Mariana Goldfarb.

E os minutos foram passando e um interesse tão honesto foi surgindo que o fato de ter que me apresentar e dizer meu nome, onde trabalhava, porquê estava ali, me envolveu em um sentimento de entrega e verdade tão intenso que simplesmente não queria estar ao lado de outra pessoa que não fosse ele.

Eu não teria dado match com ele em aplicativo nenhum. Não é o tipo de homem que chama atenção em vitrine. Eu apenas gostei de saber seu nome, ouvir sua voz e pensar sobre a escolha duvidosa de uma camisa social para a primeira noite do Carnaval de Salvador.

Ele foi mais atraente que a descrição de seu perfil, fotos de óculos escuros e, mesmo quando a gente se olhou, apesar de uma arrogância inicial fazendo perguntas como “o que justifica sua presença aqui”, eu simplesmente quis responder a todas elas feliz por saber que quando eu perguntasse “e você?”, ele me responderia imediatamente, e não 15 horas depois.

As pessoas têm cheiro e elas cheiram bem, na maioria das vezes. E ele cheirava doce, e sorria, e falava português e inglês com um chileno, e sorria de novo. Com uma mão segurava o cigarro, com a outra o celular, em um movimento intenso de registro daquilo que era, sem dúvidas, uma noite memorável.

Talvez eu não consiga explicar claramente o que aconteceu. Eu gostei de sentir o movimento que o tecido da polêmica camisa social desenhava nas minhas costas. Como eu disse, ele não levaria meu coração se estivesse na tela de um celular, mas eu simplesmente quis encostar meu braço no braço dele em todas as oportunidades que a multidão de pessoas em uma noite de Carnaval proporciona.

É muito estranho essa coisa de querer. Eu passei tanto tempo presa à tela do celular, cultivando relações lindas pelo WhatsApp, que fui me encantar não só por aquela pessoa, mas por estar vivendo tudo aquilo de verdade.

As pessoas são lindas pessoalmente. Elas têm sorrisos encantadores, elas falam coisas legais, elas conseguem ler o que você tá sentindo simplesmente porque os seus polegares estavam livres para isso. A sensação de beijar alguém que aplicativo nenhum achou para você, mas que você conseguiu enxergar, causa euforia. Em 10 horas, eu encontrei em um abraço, em um toque e em um beijo um lugar tão familiar que só pode ter sido um reencontro.

Foi naquele dia que me senti no lugar certo pela primeira vez. Foi ali que a angústia se resumia ao beijo de despedida e não à mensagem não enviada, ignorada e não correspondida. Os amores contemporâneos precisam ter coragem de tirar os olhos da tela dos celulares e olhar nos olhos das pessoas. É libertador, é verdadeiro e é uma dessas coisas que a gente gostaria que acontecesse de novo exatamente do jeito que foi.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s